Nos últimos anos, um termo novo passou a circular nas redes sociais brasileiras: boyceta. Para muita gente, a palavra apareceu de repente — acompanhada de debates acalorados, memes, ataques transfóbicos e também reflexões importantes sobre identidade de gênero.
Mas de onde vem esse termo? E por que ele se tornou o assunto nacional mais falado no X/Twitter e até mesmo o termo mais buscado do mundo por país?
A origem do termo
“Boyceta” é uma palavra híbrida formada pela junção de “boy” (menino, em inglês) e “buceta”, usada por algumas pessoas transmasculinas e não binárias para expressar uma relação específica com o gênero. A ideia não é simplesmente “ser homem”, mas reivindicar uma masculinidade que não cabe nos padrões tradicionais e que pode coexistir com expressões de feminilidade.
Na prática, o termo descreve pessoas que reivindicam uma identidade masculina ou transmasculina, mas que não se identificam completamente com a masculinidade hegemônica.
Trata-se de uma forma de nomear experiências de gênero que escapam do binário rígido homem/mulher.
A discussão no podcast Entre Amigues
Embora a palavra já circulasse em alguns espaços da cena cultural e do hip hop paulistano desde 2018, o termo ganhou grande visibilidade após Amanda Claro e Veronyka Gimenes entrevistarem o rapper Jupi77er (Jupitter Pimentel) no podcast Entre Amigues da Código Não Binário.

No episódio, o entrevistado explica: “Eu sou uma pessoa transmasculina, mas minha identidade de gênero mesmo é boyceta.”
@entre_amigues 🏳️⚧️ Neste 4º episódio do podcast Entre Amigues, o rapper e influenciador transmasculino Jupi77er fala sobre as nuances do seu gênero e sobre ser boyceta. Assista ao episódio completo no Youtube ou no Spotify! #Jupi77er #Transmasculino #Boyceta #Bissexualidade #Rap #Gordofobia #Inclusão
♬ som original – entreamigues
Durante a conversa, ele também relata viver o gênero de forma fluida e afirma que se identificar como boyceta lhe permite expressar tanto masculinidade quanto feminilidade em diferentes contextos.
O episódio abordou temas como masculinidades trans, cultura hip hop, gordofobia e a importância de criar palavras para nomear experiências de gênero.
Esse foi o episódio que originou a discussão pública sobre o termo:
Quando a internet “descobre” a palavra
Depois da publicação do episódio e da circulação de cortes nas redes sociais, o tema explodiu na internet. Trechos da entrevista viralizaram, gerando milhares de comentários — tanto de apoio quanto de ataques transfóbicos.
Reportagens indicam que a visibilidade nacional do termo começou justamente após essa entrevista, que foi amplamente compartilhada nas redes sociais e comentada por figuras públicas e políticos.
Se observarmos dados públicos de interesse de busca — como os gráficos do Google Trends — é possível ver que as pesquisas por “boyceta” no Brasil disparam justamente após a viralização do episódio.

Isso mostra um fenômeno bastante típico da internet contemporânea: uma palavra que circulava em nichos culturais passa a ganhar escala nacional depois de aparecer em um conteúdo viral. Estimamos que a discussão atingiu 72 milhões de visualizações em 1 ano.
A produção do podcast e o papel da Código Não Binário
A repercussão do debate também evidencia o trabalho de bastidores que tornou o podcast Entre Amigues possível. O programa, uma iniciativa autoral e sem fins lucrativos, sem patrocínios, foi desenvolvido pelas diretoras da Código Não Binário Veronyka Gimenes e Amanda Claro ao longo de cerca de seis meses de preparação, incluindo planejamento editorial, identidade visual e design, convites às pessoas participantes, gravações, edição e organização da distribuição dos episódios.
Além disso, o projeto contou com infraestrutura pública gratuita — estúdio e equipamentos —, viabilizada pela experiência de Veronyka Gimenes na utilização de políticas públicas de acesso à cultura e à comunicação, demonstrando como esses mecanismos podem permitir que produções independentes alcancem grande impacto público.
A repercussão do episódio e das discussões posteriores também indica um acerto estratégico da Código Não Binário na escolha do formato videocast, das pessoas convidadas e dos temas abordados. Ao reunir experiências diversas e debates contemporâneos sobre gênero, cultura e sociedade, o programa conseguiu levar discussões que muitas vezes circulam apenas em nichos para um público muito mais amplo e instalar no imaginário nacional uma importante expressão de dissidência de gênero.
O episódio especial sobre “boyceta”
Com a repercussão intensa — incluindo ondas de desinformação e ataques transfóbicos — o podcast Entre Amigues publicou posteriormente um episódio especial sobre os boycetas:
Nesse episódio, pessoas transmasculinas convidadas discutem:
- a origem e o significado do termo
- as experiências de masculinidades trans
- as reações da internet à entrevista com Jupi77er
- a importância de discutir gênero com mais complexidade
A proposta foi ampliar o debate e contextualizar o termo para além da polêmica viral.
Por que palavras novas aparecem?
Linguagem e identidade caminham juntas.
Quando experiências humanas não têm nome, muitas vezes elas permanecem invisíveis. Por isso, comunidades frequentemente criam novas palavras para descrever vivências que antes não tinham reconhecimento social.
O termo boyceta surge justamente nesse contexto: uma tentativa de expressar formas de masculinidade trans e não binária que não cabem nas categorias tradicionais.
Não é incomum que novos termos provoquem estranhamento — especialmente quando desafiam normas sociais muito arraigadas. Mas, historicamente, quase toda mudança cultural começa assim: com uma palavra nova tentando explicar um mundo mais complexo do que os rótulos antigos conseguem descrever.
A reação da direita e o efeito inesperado
A viralização do termo “boyceta” também provocou uma forte reação de setores conservadores nas redes sociais. Cortes do episódio circularam amplamente acompanhados de ataques transfóbicos, campanhas de desinformação e episódios de violência digital direcionados tanto às pessoas entrevistadas quanto às apresentadoras do podcast.
Essa reação acabou produzindo um efeito inesperado a partir das iniciativas organizadas pelas diretoras da Código Não Binário, com o apoio de diversas redes de colaboração.
Parte dos ataques resultou em processos judiciais contra pessoas responsáveis por violência digital, além de contribuir para iniciativas de pesquisa e desenvolvimento tecnológico voltadas ao enfrentamento do discurso de ódio online.
Desde o início da repercussão do episódio, a Código Não Binário passou a documentar sistematicamente as manifestações de hostilidade nas redes. Esse material ajudou a compor um dataset de discurso de ódio anti‑LGBTQIA+, utilizado no desenvolvimento da primeira inteligência artificial de código aberto capaz de identificar e analisar esse tipo de violência digital.
Essas iniciativas passaram a integrar uma estratégia jurídica mais ampla. Após cerca de um ano de preparação, a Código Não Binário protocolou, em janeiro de 2026, uma Ação Civil Pública (ACP) contra grandes plataformas digitais, buscando responsabilização e indenização de 100 milhões de reais pela cumplicidade na circulação e amplificação de conteúdo de ódio e LGBTfobia em seus sistemas.
Assim, uma onda de ataques que buscava deslegitimar o debate acabou contribuindo para fortalecer iniciativas de pesquisa, tecnologia e litígio estratégico voltadas ao enfrentamento da Violência de Gênero Facilitada por Tecnologias (VGFT) e à responsabilização das big techs.
Veja mais sobre esse assunto
- Podcast “Entre Amigues” – 1ª Temporada
- Relatório Anatomia de uma Onda de Ódio
- Como participar da nossa Ação Civil Pública (ACP) contra a Big Tech
- Episódio completo no YouTube: Entre Amigues com Jupi77er
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