Apuração do 1º turno de 2026: o que os dados públicos mostram
Análise independente, feita com arquivos públicos do TSE, sobre a pausa na divulgação do dia 4 de outubro e sobre a integridade dos números divulgados.
Como chegamos aqui
Tudo parte de arquivos que o próprio TSE publica na internet, sem acesso a nada que não seja público:
- O boletim de urna de 498.921 das 499.248 seções, com a "impressão digital" (hash) de cada um conferida.
- Os resultados finais e os horários registrados em cada seção, mais o painel de evolução da totalização do TSE (dados oficiais de 5 em 5 minutos).
- Amostras: 2.994 assinaturas digitais e 16.935 registros (logs) de urnas.
- Documentos oficiais: especificações dos arquivos, Res. 23.751/2026, notas e coletiva do TSE, página Fato ou Boato.
Imprensa, coletores independentes e posts virais entram só como pistas. O teste do lote das 20:04 foi registrado antes do resultado (hash local, sem carimbo externo); regras posteriores estão declaradas. Não houve acesso a urnas, softwares nem arquivos não publicados, e ainda não houve revisão humana externa. Método completo em Detalhes Técnicos.
Como o voto chega ao painel
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Urna
Às 17h a votação acaba. A urna imprime o boletim e grava os resultados numa mídia. Não transmite nada.
Dá para ver Boletim na porta da seção
- 2
Ponto de transmissão
Um técnico lê a mídia e envia o arquivo, já assinado pela urna, por rede privada (em locais remotos, por satélite).
Sem registro público
- 3
Recebimento no TSE
O sistema confere a assinatura e põe o arquivo numa "fila". Cada seção ganha a hora de recebimento.
Dá para ver É o que o gráfico mostra
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Totalização
O sistema soma os boletins recebidos, por zona, cidade, estado e país.
Dá para ver Hora da totalização
- 5
Geração dos arquivos
A soma vira os arquivos do painel. Aqui o TSE disse ter havido o problema.
Dá para ver Hora de geração
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Cópias e painel
Os arquivos são copiados para servidores de distribuição e chegam ao painel, ao app e à imprensa.
Dá para ver O próprio painel
É um pinga-pinga: são 499 mil seções, cada uma seguindo esse caminho no seu horário. O painel só muda quando as etapas 3 a 5 andaram e a 6 copiou o resultado.
Onde parou? O TSE diz que foi na etapa 5 e que a 4 não foi afetada. Nos arquivos públicos, a etapa 3 ficou 27 minutos sem registros, em todos os estados: compatível com o que o TSE disse, mas não o comprova. Só o TSE sabe em que etapa o fluxo ficou represado.
▶ Veja a animação, minuto a minuto
Em 30 segundos
- Os arquivos do TSE batem entre si. A soma dos boletins de urna publicados é igual ao resultado final de Presidente em 6.283 das 6.292 zonas (com uma regra de voto nulo que definimos depois; ver Detalhes). É consistência entre arquivos do TSE, não auditoria da eleição nem da urna.
- 74.234 votos a menos na soma dos boletins, em 9 zonas com 286 seções sem boletim publicado (0,06% dos votos). É 0,15% da distância entre o 2º e o 3º colocados (50,4 milhões), então não muda quem foi ao 2º turno; falta explicação do TSE.
- O painel nacional ficou cerca de 50 minutos parado em 64,81% (coletor independente). O TSE diz que uma "contenção" parou o módulo do resultado nacional e que a totalização seguiu, exceto por "um breve momento". O painel oficial confirma a primeira parte (a totalização foi de 323.539 a 424.078 seções até 19:32), mas o ritmo já caía desde 19:25 e, de 19:32:21 a ~20:05, quase parou (+75 seções). Dois relógios: painel nacional (~50 min) e totalização (~30 min). Causa não divulgada.
- Parte do que circulou nas redes está errada, parte está certa.
- Preparamos um pedido ao TSE, ainda não enviado (página Pedido de Informação).
O que aconteceu
Na noite de 4 de outubro, o painel de Presidente ficou cerca de 50 minutos mostrando 64,81% das seções (dados de 19:06, publicados às 19:14, segundo coletor independente) e depois passou a mostrar 84,96% (20:04). O TSE disse em nota (23:56) que a dificuldade se limitou à "conversão dos dados pelo programa de divulgação" e não afetou a totalização; na coletiva, o Presidente falou em isolar outros sistemas e religá-los. Em 06/10, no Fato ou Boato, o TSE atribuiu a pausa a uma "contenção no processamento de dados" no módulo que gera o resultado nacional ("Brasil"), por aumento de volume às 19:14, e anunciou uma nova rotina para o 2º turno.
Barras: seções com registro de horário em cada minuto (arquivos baixados em 05/10); sombreado: minutos sem nenhum registro. Linha: painel nacional segundo coletor independente, não verificado pelo TSE.
Detalhe técnico: o que o registro de horário
hr mede e o que não mede
O hr do arquivo auxiliar de cada seção é descrito pelo TSE como "hora do recebimento dos arquivos". Mas o fluxo oficial tem várias etapas entre a chegada do boletim e a totalização (transmissão, recebimento, totalização, geração dos arquivos e replicação para a CDN), e não se sabe qual sistema grava o hr. Ele também pode ser refeito quando o arquivo muda de situação (por isso boa parte dos registros de 17:00 a 17:10 é de seções do exterior). Segundo o TSE (Fato ou Boato, 06/10), a visualização estadual não foi afetada e o cálculo da totalização seguiu, com uma suspensão "breve" por protocolo de segurança; a área de tecnologia investiga. O registro parou, em todos os estados, em três intervalos: 18:01–18:08, 18:49–18:53 e 19:31–19:59. A totalização oficial também parou (19:32:21). A publicação dos boletins já recebidos continuou: 41.668 arquivos bu.dat foram publicados entre 19:32 e 19:58, todos de seções carimbadas até 19:31:50; boletins novos só reaparecem a partir de ~19:59. O TSE afirma que os boletins continuaram a ser recebidos; os arquivos públicos não permitem ver se chegavam e ficaram retidos antes do processamento. O arquivo nacional publicado às 20:04 tem horário de totalização 19:45:15.
Os números divulgados batem entre si?
Baixamos os boletins de 498.921 das 499.248 seções: todos têm a cadeia de hashes íntegra, e a soma é igual ao resultado final em 6.283 de 6.292 zonas. As 9 restantes são exatamente as zonas que têm seções sem boletim publicado, e a diferença tem o tamanho esperado para essas seções (os votos delas são desconhecidos).
Limite: testamos os dados do TSE contra eles mesmos. As assinaturas digitais que verificamos (amostra de 2.994 seções) são válidas, mas os certificados são do próprio TSE e não examinamos o software da urna. É consistência, não auditoria.
As 12.018 seções que o TSE ainda mostrava como "Recebida" em 5 de outubro têm boletim publicado, e ele entra na soma que fecha; o que ficou pendente é o status do arquivo (compatível com arquivo auxiliar desatualizado; só o TSE pode confirmar).
Detalhe técnico: lote das 20:04, assinaturas, margens e amostras
- Lote das 20:04 (cerca de 100 mil seções): teste de baixo poder, que não prova integridade. A soma dos boletins ficou perto do publicado (+0,11% nos votos válidos; parcela do candidato 13 −0,008 ponto), dentro de uma tolerância fixada antes (0,5% e 0,7 ponto; hash gravado antes do cálculo, ainda sem carimbo externo). Só que essa tolerância (cerca de 120 mil votos) é maior que os 74 mil em discussão, o número de seções do lote bate por construção (o corte foi calibrado nos totais publicados) e a escolha supõe fila por ordem de chegada. Tamanho do lote: 100.614 = 424.153 − 323.539; o 424.153 confere com o painel oficial do TSE (totalização das 19:45:15), e o 323.539 vem de coletor independente. Escolhemos os boletins pela ordem do registro de horário.
- Assinaturas: amostra em parte não aleatória; no grupo "uniforme" (1.794 seções, sem falhas) o limite superior de seções com problema no país é cerca de 0,17%.
- 31 seções foram apuradas fora da urna (29 no exterior, manual; 2 em Minas, mista). Foram usadas urnas de reserva em 3.032 seções; o TSE informou 1.904 substituições.
- A diferença de 74.234 votos equivale a 3,3% da distância entre o 1º e o 2º colocados e a 0,15% da distância entre o 2º e o 3º (50,4 milhões), que é o que decide quem vai ao 2º turno.
O que circulou e o que os dados mostram
Certo ou parcialmente certo: o painel nacional ficou defasado de 18:49 a 19:14 enquanto os estados avançavam e depois cerca de 50 minutos congelado (coletor independente); houve três pausas no registro de horário.
"Às 19:16 as urnas UE2013 e UE2015 geram erro e a contagem trava" (vídeo no X, 886 mil visualizações em 05/10). Os arquivos públicos não mostram isso: a pausa atingiu todos os estados e modelos, a urna não transmite (o registro dela termina por volta das 17h10) e, numa amostra de 16.935 registros, nenhuma urna tem linha de erro entre 19:10 e 19:20. Em 06/10 o TSE declarou, no Fato ou Boato, que a imagem é falsa; os dados públicos também não mostram o que ela alega.
"Starlink". A urna nunca fica online: o arquivo, já assinado pela urna, é enviado por um técnico, e em locais remotos a antena Starlink é só o canal (até 1.113 terminais, 97% na Amazônia). Isso não explica a pausa, que atingiu todos os estados, e o canal não altera um arquivo assinado.
Detalhe: por que a comparação de resultados com 2022 não responde
Nenhum arquivo público marca o canal de envio e as listas de locais são parciais. Em 29 municípios do Maranhão com antena, o Lula caiu 6,8 pontos contra 4,6 no resto do estado, mas a diferença some conforme o cálculo (média simples dos municípios: −0,4; mediana: +0,2) e vem sobretudo de São Luís contra o interior; os candidatos de 2022 e 2026 também não são os mesmos. O teste não mostra nem exclui efeito. Para responder falta a lista de locais atendidos, que só os TREs têm.
Nem "a pausa prova fraude" nem "a pausa prova que está tudo normal": nos dados que examinamos nada indica fraude, nada audita a eleição, e a pausa e as 286 seções seguem sem explicação.
O que ainda está sem resposta
- O que foi isolado, quando e por quem, qual "volume" aumentou às 19:14 e que recurso saturou. O TSE publicou uma explicação e o painel de totalização, mas não um relatório técnico. Sem resposta também: quando a suspensão da totalização começou e terminou, e quantos boletins novos foram recebidos entre 19:32 e 20:00.
- As 286 seções sem arquivos (214 em São Paulo, 33 em Betim, 18 em Teófilo Otoni, 12 em Carapicuíba, 5 em Uberlândia, 4 em Itu): por quê, e confirmação de que seus votos foram somados a partir dos boletins. Quem tiver o boletim impresso (fiscais, por exemplo) pode conferir; a lista está em Detalhes Técnicos.
Outras perguntas (as 12.018 seções "Recebida", 1.904 ou 3.032 substituições, reinício do sistema de totalização) estão no pedido, em Pedido de Informação. A Res. TSE 23.751/2026 não fixa prazo para a divulgação parcial: a questão é de transparência.
Você mesmo pode conferir: o boletim impresso na porta da sua seção tem QR Code (aplicativo Boletim na Mão).